Executivos e a culpa – Texto de André Caldeira (Fonte: www.exame.com.br)

02/08/2012 at 11:32 AM Deixe um comentário

Esta semana participei do programa Conta Corrente, da Globo News, cuja pauta girava em torno da importância de metas para o desempenho profissional e também da culpa como gatilho de motivação e responsabilidade para o desenvolvimento de líderes.

A pauta do programa mencionou uma pesquisa feita pela Universidade de Stanford (http://www.gsb.stanford.edu/news/research/leadership-guilt-flynn.html) que, resumidamente, indica que profissionais que se sentem culpados tendem a ter maior responsabilidade com o trabalho e seus entregáveis, o que tem correlação com potencial para o desenvolvimento de características de liderança. O raciocínio é simples: o profissional mais engajado, que se sente culpado por algo não estar indo bem no trabalho, tende a ser mais  presente e proativo em tentar resolver os problemas que o fazem se sentir desta forma. Ao demonstrar este tipo de comportamento, começa a despontar como um líder em potencial, por agir com proatividade, demonstrar engajamento, vestir a camisa e agir com mais foco para defender os interesses da empresa.

O programa, de 30 minutos, passou voando, e quase não deu tempo para elaborar sobre a importância das metas, tampouco sobre a questão da culpa. Mas acho que este último tópico vale um mergulho mais aprofundado.

Em primeiro lugar, é fato que o profissional de hoje em dia é sempre devedor, nunca credor. Essa eterna e onipresente dívida que nos acompanha se transforma em culpa em muitos casos. Mas que dívida é essa? Existem dois tipos. A primeira é a dívida profissional, pois quase nunca conseguimos estar com nossos entregáveis em dia, estamos sempre correndo atrás, trabalhando até mais tarde, lutando para cumprir com deadlines, fazendo malabarismos para conseguir cumprir com a multiplicidade de funções e expectativas que a carreira profissional e as empresas demandam hoje em dia. Já o segundo tipo de dívida é a pessoal, aquela que nos abate quando saímos do trabalho e chegamos em casa. Via de regra, estamos atrasados, ausentes, não conseguimos participar do evento na escola das crianças, chegamos mais tarde no jantar de família, estamos cansados e, portanto, pouco interessados nas conversas, ou não conseguimos deixar de lado o smartphone e os assuntos do trabalho, mesmo fora do escritório…

O resultado é dívida. Dívida por não conseguir estar em dia com o trabalho, dívida por não conseguir estar em dia com a vida pessoal e com a família. Essa divida vira culpa, que pode ser um motor construtivo ou destrutivo. Se construtivo, nos força a ser mais produtivos no trabalho, a tentar equilibrar melhor nossas agendas profissionais e pessoais (incluindo aí a leitura de uma coluna como esta em Exame.com sobre Trabalho e Stress…). Se destrutiva, a culpa pode nos induzir a comportamentos mais radicais e até precipitados, que vão da apatia (pela falta de saber o que fazer) às decisões de ruptura, como um pedido de demissão, a decisão de mudança de emprego ou o final de um casamento.

Em segundo lugar, o profissional de hoje tem inúmeros vetores de culpa no seu dia a dia no trabalho. O chefe que é exigente demais (e a nossa expectativa de estar à altura desta exigência), o novo cargo recém-assumido (e o medo calado de não estar conseguindo dar conta do novo patamar e das novas responsabilidades), a gestão da equipe (e o eterno fantasma de não saber equilibrar o braço exigente com o braço acolhedor e humano), a safra de problemas diários (e a expectativa de infalibilidade que é característica dos ambientes corporativos), o colega que ocupa uma posição como nosso par (e a chance de ele conseguir dar conta melhor do todo e ser promovido antes de nós), o atendimento ao cliente (e o temor de não termos feito o suficiente na opinião dele), as habilidades interpessoais ( e o quanto não sabemos lidar com certas situações, absolutamente novas), os horários de trabalho estendidos (e a preocupação com o que podem pensar se sairmos mais cedo, mesmo já tendo terminado tudo o que devíamos naquele dia), a abordagem de um headhunter (e o fantasma de deixar a equipe na mão se não estivermos na empresa dali a algum tempo). Todas estas situações, entre muitas outras, são gatilhos potenciais de culpa, de dúvida, de eventual questionamento interno sobre o que devemos ou não fazer, como devemos agir, o que devíamos ter feito, e por aí vai.

Em terceiro e último lugar (literalmente), existe a culpa individual, pelo descontrole da vida pessoal. A forma física que se foi há um bom tempo e que o espelho não nos deixa esquecer, os excessos de comida ou de bebida alcoólica, a academia que pagamos e não frequentamos, de novo, a falta de tempo para ler um bom livro, a ausência de um hobby, a irritação constante pelo stress no trabalho que nos faz reagir de forma intempestiva e inadequada com familiares e pessoas que não tem nada com isso, o distanciamento dos amigos, a procrastinação comomodus-operandi em tudo que não engloba assuntos do escritório, a falta de autoconhecimento e análise pessoal do direcionamento de vida, do propósito, do que queremos construir e deixar como legado. Tudo isso ( e muito mais) orbita na nossa culpa pessoal.

Ou seja, é culpa que não acaba mais. No trabalho, na vida pessoal, com a família.

Mas pergunto: qual o gatilho real desta culpa? A causa é o que queremos, de fato, realizar no âmbito profissional ou o que achamos que esperam de nós? O gatilho é interno ou externo? Somos causadores ou vítimas deste redemoinho? Protagonistas ou coadjuvantes deste enredo de culpa e stress?

Como sempre, acho que as respostas são individuais. Meu objetivo é estimular reflexão e debate. Mas deixo aqui uma dica, ligada diretamente ao tema do Conta Corrente: a importância das metas. Metas são trampolins, check-points ou linhas de chegada importantíssimos para o equilíbrio da vida profissional e pessoal. Até que ponto quero chegar em minha carreira? Qual posição quero conquistar? Em quanto tempo? E qual o custo de oportunidade desta meta na minha vida pessoal? Estou disposto a pagar este preço? Estou aberto a encarar este desafio não com culpa, mas com determinação e consciência sobre minhas perdas e ganhos? Como disse John Kennedy: “Não vamos tentar consertar a culpa do passado; vamos aceitar nossa responsabilidade pelo futuro”.

André Caldeira: Diretor da Proposito, empresa focada em liderança, equilíbrio no trabalho, educação e branding. Consultor, autor e palestrante sobre equilíbrio entre excesso de trabalho e vida pessoal. andre@proposito.com.br

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