Sobre ser Generoso – Texto de Adriano Silva (Fonte: www.manualdeingenuidades.com.br)

03/05/2012 at 5:26 PM 6 comentários

Eu sou de ajudar os amigos. Tomo os problemas deles com se fossem meus. Mas já mergulhei mais fundo nesse vício. Desde há uns anos, fui me dando conta de que nem sempre o que você enxerga como problema é visto da mesma forma pelo amigo. Ou vice versa. E quase nunca a receita que você oferece como antídoto é algo que vai fazer sentido para o sujeito. Os tempos e os ritmos são diferentes. Assim como o teor e a direção das decisões. A vida é um jogo feito de escolhas – e das suas consequências em nossas realidades. Cada um precisa ter a liberdade e a responsabilidade de exercitar isso no seu dia a dia. Então é impossível “salvar” os outros das decisões que tomam – e dos seus desdobramentos. Por piores que elas sejam. E por mais que você ame essas pessoas. Exercer esse controle, ainda que amoroso e com a melhor das boas intenções, seria impedir a pessoa de viver. Ou de andar com as suas próprias pernas. Como na ótima frase que ouvi já faz um tempo: não adianta você querer colocar o seu tijolo na parede dos outros. Não cabe direito, as medidas são diferentes, nunca resolve, nunca é suficiente, nunca é bom – a parede do cara continua torta, ou mal remendada, e você, bem, você desperdiçou um tijolo.

 

Uma vez eu precisei de um amigo – apesar de ter sempre me atirado ao mar para ajudar pessoas de quem eu gosto (e que às vezes nem sequer posso considerar “amigas”), sempre cultivei um baita pudor de levantar a mão e pedir água. Mas uma vez precisei que um amigo me encaminhasse dentro da empresa em que ele trabalhava. Na verdade, bastava encaminhar um trabalho meu. Não precisava lobear muito, nem levantar da cadeira, nem se por em maus lençóis, nem fazer quase nada. Era só dar um forward e, sei lá, escrever duas linhas elogiosas a meu respeito ou a respeito do meu trabalho. Meu amigo não o fez. Me devolveu o pedido dizendo que enviaria o texto – sim, era um texto para publicação, na época em que o nome “Adriano Silva” significava ainda menos do que significa hoje -, mas que não insistiria muito com o seu colega. E eis o seu argumento – ele não gostava quando intercediam junto a ele a favor do trabalho de alguém, então ele não intercederia a meu favor. Então ele não abriria essa porta. Não sairia da sua zona de conforto. Repassaria a sugestão sem lhe acrescentar nenhum verniz, nenhum enfeite, nenhum asterisco ou piscadela. Esse cara era um daqueles amigos fundamentais. Que, bem, não se mostrou exatamente como eu o considerava intimamente. Mas eu não o considerei egoísta nem canalha. Lembro de ter admirado a sua sinceridade (para comigo) e a sua honestidade intelectual para consigo mesmo, e preservei unilateralmente a nossa amizade de qualquer solavanco por causa disso.

 

Alguns anos mais tarde, a situação se inverteu. Eu estava bem posicionado numa grande empresa do segmento em que aquele amigo e eu atuamos. Ele estava bastante insatisfeito com o emprego e com a própria carreira. E eu lhe ofereci trabalho – e, consequentemente, algum dinheiro e um outro tipo de visibilidade. E tudo isso fez muito sentido para ele naquele momento. Em tempo, o apresentei a um colega de empresa, que acabou contratando meu amigo em definitivo, numa ótima posição. E eu não tinha muito contato com esse colega – nós jogávamos em times que competiam um pouco dentro da empresa. Ou seja: eu me expus, saí da minha zona de conforto, corri o risco de mais tarde ver aquele colega intercedendo junto a mim em nome de alguém. Eu sabia que meu amigo valia a pena. Para mim, isso é natural. Não custa nada. Não tem nem o que pensar. E jamais me ocorreu oferecer a ele o mesmo tratamento frio que ele me havia oferecido quase uma década antes. Eu não seria eu mesmo se tivesse considerado algo assim. Eu sou inclusivo. Gosto de ver gente e oportunidades se conectando. Fico feliz quando consigo potencializar esse processo. E opero pela meritocracia, sempre. Não é porque ele era meu amigo – é porque ele era bom. (Taí: será que a não recíproca do cara vem do fato de que ele não em considerava bom?)

 

Ser generoso é bom. Faz bem para a pele. Aumenta seus anos de vida. E acho que generosidade, no fundo, é isso: fazer o bem sem olhar a quem. E mesmo quando a recíproca não é verdadeira. Agir direito sem ficar fazendo conta do retorno que isso pode ter. E continuar agindo direito mesmo quando você já sabe, comprovadamente, reiteradamente, de antemão, que isso não vai lhe trazer retorno algum

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6 Comentários Add your own

  • 1. J.C.Cardoso  |  03/05/2012 às 5:40 PM

    Botana, eu também ajo direito sem esperar retorno, mas fica sempre aquele pensamento “subentendido”, tácito, de quando V. ajuda, o ajudado tenha um mínimo de consideração e ajude você em retorno quando V. precisar.
    Me desculpe, mas quem disser que ajuda até se o outro pisar na cabeça, sinceramente, não está sendo honesto nem mesmo para consigo próprio.
    Tanto é que nos frustamos quando o ajudado não retorna quando precisamos. Atire a primeira pedra quem disser nunca ter ficado frustado com a negação como “retorno” a um agradecimento.
    Não se trata de mesquinharia, mas de um pensamento… humano!

    Resposta
  • 2. excelenciagrafica  |  04/05/2012 às 1:20 AM

    Botana, gostei muito. Já me vi nessa situação várias vezes e o que tiro delas é que é mesmo melhor não precisar da ajuda dos amigos, embora em algum momento isso seja a única coisa que pode restar. Os generosos deveriam ter mais sorte por conta disso. Bacana!

    Resposta
  • 3. J.C.Cardoso  |  04/05/2012 às 11:59 AM

    Bem diz o ditado: “uma mão lava a outra”…

    Resposta
  • 4. Dulcy Grisolia  |  07/05/2012 às 3:08 PM

    Botana, gostei do seu texto. Eu costumo dizer que não me arrependo de ajudar os outros porque sempre recebi essa ajuda de volta, ainda que ela venha por outras mãos…

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  • 5. J.C.Cardoso  |  08/05/2012 às 3:25 PM

    Oi, Dulcy.
    Eu também acabo sendo ajudado, mas o que digo é que fica sempre se esperando um “mínimo de consideração” em retorno. Quem disser que não espera por esse gesto tão mínimo, sinceramente nem a merece e engana a si mesmo.

    Resposta
  • 6. J.C.Cardoso  |  09/05/2012 às 2:50 PM

    Dentro do que falávamos… saiu hoje (quarta, 9) no G1.

    Se V. se revolta com a história abaixo é porque, mesmo que não espere favor em retorno, concorda que deva haver um mínimo de consideração recíproca.

    http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2012/05/mulher-doa-rim-para-chefe-e-acaba-demitida-durante-recuperacao.html

    Mulher doa rim para chefe e acaba demitida durante recuperação
    Caso aconteceu nos Estados Unidos. Debbie e Jackie foram operadas e voltaram a trabalhar na mesma época. Debbie diz que teve problemas na recuperação e que precisou faltar uns dias porque não estava bem.

    Um escândalo nos Estados Unidos. É a história de uma mulher que doou um rim para ajudar a chefe, que estava muito doente. Só que a doadora foi demitida. Agora, ela luta por reparação na Justiça.
    Debbie Stevens não consegue esconder a revolta. Ela é divorciada e mãe de dois filhos. Trabalhava numa revendedora de carros de Long Island, em Nova York.
    No fim de 2010, Debbie resolveu doar um de seus rins para salvar a vida da ex-chefe dela. Jackie Bruscia, diretora da empresa, estava muito mal e no fim da lista nacional de transplantes. As duas não eram compatíveis.
    Então, Debbie doou o rim para outro paciente para que Jackie pudesse avançar de posição na lista e fazer logo a cirurgia. Foi o que aconteceu.
    Debbie e Jackie foram operadas e voltaram a trabalhar na mesma época. Debbie diz que teve problemas na recuperação e que precisou faltar uns dias porque não estava bem. Segundo ela, foi aí começaram os problemas.
    “Ela gritava comigo, me censurava, me tratava mal na frente dos colegas de trabalho.” Mas em vez de ouvir ‘obrigada’, Debbie ouviu de Jackie: “você está demitida”.
    A ex-funcionária entrou na Justiça contra a ex-colega e contra a empresa. A empresa divulgou um comunicado dizendo que Debbie foi tratada de forma correta e que ela está se aproveitando de um gesto de generosidade para fazer reivindicações sem sentido.
    Debbie responde: “‘Não vou deixar que essa história toda traga arrependimento por ter salvo uma vida. Não vou”, afirma ela.

    Resposta

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