Brasil já importa até livro didático. Texto de Marcelo Rehder, Jornal “O Estado de S. Paulo” 19/02/2012

29/02/2012 at 11:24 AM 4 comentários

Custo de produção local leva o País a ampliar compras de países como China e Índia, com prejuízos para o emprego no setor gráfico.

O avanço das importações chegou ao mercado de livros didáticos. Nos bancos escolares, os estudantes brasileiros estão estudando em livros impressos na China, Índia, Coreia, Colômbia e Chile.

Em 2011, editoras que fornecem material para o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), do governo federal, ampliaram em quase 70% as encomendas no exterior, estimam empresários da indústria gráfica. Os motivos são o câmbio e o custo Brasil.

Principal cliente para as gráficas do segmento editorial, o governo responde por 24,4% das compras de livros no País, que somam cerca de R$ 4,5 bilhões. No ano passado, o governo fez uma compra recorde de 170 milhões de livros didáticos para o ano letivo de 2012.

Segundo Fabio Arruda Mortara, presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), as editoras foram às compras no exterior, com base no argumento de que as gráficas editoriais brasileiras não teriam condições de entregar todas as encomendas dentro dos prazos estabelecidos nos editais.

A consequência disso foi que boa parte das gráficas trabalhou com alguma ociosidade a partir do segundo semestre de 2011, período em que elas costumam rodar livros didáticos. Em dezembro, representantes dos empresários e dos trabalhadores foram ao Ministério da Educação expor a preocupação com o crescimento nas importações.

“Já estamos perdendo empregos”, diz o presidente da Abigraf. A indústria gráfica investiu US$ 5 bilhões no Brasil nos últimos quatro anos. Um empresário paulista, que pediu para não ser identificado, conta que demitiu 300 empregados nos últimos dois meses, o equivalente a 25% no quadro de pessoal. Além disso, engavetou um projeto de investimento US$ 20 milhões previsto para este ano. “Eu estava comprando uma máquina de 64 páginas e agora não tenho mais condições”, diz o empresário.

O presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), José Carlos Wanderley Dias de Freitas, que participou de uma das reuniões com empresários e trabalhadores do setor, disse ao Estado que o órgão não tem informações diretas sobre aumento nas importações de livros didáticos.

“A relação de contrato do CNDL é com as editoras e a impressão do livro didático não é uma questão nossa”, argumentou Freitas. “Se a editora vai fazer a impressão no Brasil, na China, na Europa ou na América do Sul, é um problema dela.”

O avanço das importações não aparece nas estatísticas oficiais porque não existe posição aduaneira específica para o livro didático. Mas a indústria gráfica tem algumas sinalizações sobre o tamanho da encrenca. Uma delas é que, até 2010, as importações de livros medidas em dólares e em toneladas caminhavam praticamente juntas. No ano passado, porém, a quantidade de títulos do exterior saltou 62%, para 31,1 mil toneladas, enquanto o crescimento em valor foi de apenas 27%, para R$ 175,8 milhões.

Na avaliação dos empresários do setor gráfico editorial, o descolamento se deve a um forte aumento na compra de livros didáticos, que custam bem menos que a grande maioria dos livros importados pelo País.

A presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Karine Pansa, prefere não tomar partido no debate. Ela fez questão de ressaltar que a entidade defende os valores éticos do mercado, mas não interfere nas questões comerciais das editoras.

“Gostaríamos que houvesse menos importações em todos os segmentos, não só o livreiro, para o bem do desenvolvimento do Brasil”. E acrescenta: “Sabemos que os editores estão buscando a possibilidade de impressão em outros países porque o custo Brasil é prejudicial nesse momento à produção nacional”.

(Obrigado Jonathan pela informação!!)

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Os riscos do Brasil não ser uma potência – Texto de Fábio Pereira Ribeiro (Fonte: www.exame.com.br) Pesquisa: empresas destinam até 2% do faturamento para melhoria da gestão (Fonte: Monitor Mercantil)

4 Comentários Add your own

  • 1. J.C.Cardoso  |  29/02/2012 às 11:33 AM

    Sem querer maldar, mas nesses acordos internacionais deve ter sempre alguém levando algum. Só pode.
    Depois que recebi aqui no jornal dois materiais (em ocasiões diferentes) do Ministério da Agricultura que o Brasil importa castanha do caju e azeite de dendê (se não me engano do Vietnã e do Gabão, respestivamente), nada mais me assusta, muito embora ache mesmo um absurdo.

    Responder
  • 2. excelenciagrafica  |  29/02/2012 às 11:57 AM

    O Governo não faz a compra direta, quem a faz são as editoras. Estas sim são responsáveis pela negociação e, falando francamente, até o Lula (que nunca sabia de nada) sabe que a capacidade produtiva das gráficas é superior à demanda.
    Buscando um maior lucro, e não a redução dos impostos, essas editoras foram atrás de gráficas fora do Brasil. E o efeito colateral todos sabemos qual é. Em 2005, 07 anos atrás, eu já via uma grande editora ligada a um grande grupo espanhol comprar suas impressões na China.
    Em algum tempo estaremos como os americanos.
    Quem compra sempre quer pagar o mais barato e quem vende sempre quer o maior lucro, e para ambos não importa quem fabricou e sim o quanto vão levar nessa.
    Produzir na China por falta de capacidade aqui é uma coisa, mas produzir na China para ganhar mais do que aqui é bem outra. Faz tempo que estão chocando o vo da serpente.
    Robson

    Responder
  • 3. J.C.Cardoso  |  29/02/2012 às 5:01 PM

    Eu evito ao máximo comprar produtos chineses. Esses caras estão f@d&nd@ a nossa indústria (a ocidental); pagam um “salário” (se é que podemos chamar assim) de quase-escravidão e vendem um produto de qualidade (hoje) duvidosa (há algum tempo, ruim mesmo).
    Procuro só comprar em dois casos: quando é de alguma marca “de nome”, porque pressupõe-se ter um “controle de qualidade” sob sua chancela; ou se, “no sufoco”, em casos que não dá para esperar.
    No mais, prefiro pagar mais caro por um produto de outra procedência, ainda que não seja nacional.
    Concordo com V. “produzir na China por falta de capacidade aqui é uma coisa, mas produzir na China para ganhar mais do que aqui é outra”.
    Infelizmente, na maioria dos casos, a opção “Made in China” é pelo segundo motivo.
    O caso é tão sério que o setor de brinquedos tem-se mobilizado fortemente contra; espero a área gráfica fazer o mesmo.

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  • 4. Danilo Marques  |  09/03/2012 às 4:51 PM

    Quando o foco está nos acionistas, a diretriz é o custo baixo. Isso justifica o volume importado. Porém, tenho dúvidas de que esses números sejam para o PNLD. Pois o prazo para produção que o edital impõe é muito inferior ao desejável pelos trâmites de produção e transporte que exigem para uma produção na China. Por mais que exista um título quase que certo de ser aprovado pelo PNLD, seria um risco muito elevado antecipar sua produção.

    Responder

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