É hora de desacelerar – Texto de Adriano Silva (Fonte: manualdeingenuidades.com.br)

17/02/2012 at 10:52 AM 1 comentário

Para mim, a estratégia de me esfalfar diariamente em nome de uma felicidade futura não serve mais. E para você, fast car? Que tal forçar menos o motor e ser feliz hoje?

É o seguinte. Faz 20 anos que eu acelero, que eu virei caxias, um baita CDF, que eu me impus o tribalium. Faz mais tempo, para dizer a verdade. São exatos 23 anos correndo em ritmo agudo. Desde os 17, quando mudei de cidade, para iniciar a faculdade na capital, e comecei a me dar conta do degrau da escada em que me encontrava. Decidi que queria estar mais acima. Bem mais. Ou noutra escada talvez. Havia muita coisa que eu não tinha e queria para mim. Não sabia bem como chegar lá. Então baixei a cabeça e enfiei o pé lá embaixo. Culturalmente, eu pertencia à classe A. Financeiramente, cheguei a habitar alguns anos na classe D. Essa é uma posição muito dura – sua cabeça convive num determinado círculo e seu bolso, em outro. Quem é classe D de corpo e alma vive menos angústias com a sua condição, creio eu. Aqui no íntimo eu costumo criticar bastante o menino que fui. Afinal, quem consegue ter orgulho do que fazia e pensava quando jovem? Mas isso aquele garoto fez muito, muito certo: infeliz com o lugar em que estava, agiu forte para mudar a situação. Reagiu se lançando com todas as forças na direção daquilo que lhe parecia um bom Norte a seguir. Agradeço muito àquele garoto por isso. O grande combustível que ele, ou eu, queimamos ao longo dessa jornada foi sempre o desejo de virar classe média, de ter os confortos de uma vida melhor.

Cheguei lá dez anos depois. Aos 27 estava na maior cidade do país, num cargo de direção de uma grande empresa, morando num bairro de classe média alta, dirigindo o carro dos sonhos do brasileiro – um Vectra! – e não precisava mais escolher os pratos do cardápio pelo preço. Ou por outra: podia sair para comer fora quando quisesse, sem ficar conferindo o extrato bancário dia sim, dia não. Minha realidade anterior era de não poder quase nunca. E quando podia, era o preço que determinava minhas escolhas. Que eram, portanto, na maioria das vezes, escolhas pobres. (Note que esse é um bom parâmetro para definir se o sujeito entrou ou não na classe AB – a liberdade gastronômica.) Era para eu ter brindado com uma Veuve Clicquot, dado meu plano por encerrado com sucesso e ter mudado a marcha do carro. Você fez isso? Eu também não.

Como acontece por aí nas melhores famílias, a gripe passou e eu continuei tomando os remédios. Quando você subiu vinte andares, por que não subir mais vinte? Se a carreira de verdade só dura uns 30 anos, por que se poupar? Por estratégia ou por vício, por atitude ou por inércia, continuei acelerando. Tinha outras coisas a conquistar. Tem sempre um monte de coisas que você ainda deseja. No meu caso, o santo graal virou, nos últimos anos, gerar condições para ter uma aposentadoria e uma velhice tranquilas. Minha geração é a primeira que sempre soube que não pode contar com a previdência pública. As gerações anteriores podem alegar que foram enganadas, traídas, usurpadas pelo governo. Nós não. Nós já sabemos que não poderemos contar com o INSS. Então cada um tem que dar o seu jeito. Como não é meu plano virar lá na frente um peso na vida dos meus filhos, de novo reagi me lançando na direção daquilo que julgava ser um bom Norte a seguir. Outro causa nobre. Em nome da qual tenho queimado também um bocado de combustível.

Parece bobagem, mas ter rompido a casa dos 40 anos tem sido bastante simbólica para mim. Tenho revisto, somente agora, e de verdade, uma série de coisas. Podia ter feito essas reflexões aos 39, assim como poderia fazê-las ano que vem, aos 41. Mas o fato é que estou corrigindo algumas rotas nesse momento. E estou feliz com isso, com essa energia que veio não sei de onde para operar essas pequenas grandes mudanças em minha rotina. Há no pano de fundo, pela primeira vez com clarezaprática em minha vida, e não mais como uma certeza teórica e distante, a sensação palpável de que a minha existência tem fim e de que estou me aproximando dele, inexoravelmente. Sempre foi assim, claro. Só que agora é mais assim do que antes, entende? Estou começando o segundo tempo da vida. E não há mais tempo a perder. Nunca houve. Mas agora soa mais premente não perder tempo como o que é supérfluo, com espumas e falsas necessidades, com atividades que são meio e não são fim. Minha nova ansiedade é só investir tempo no que for essencial, com pessoas e coisas que me são caras – e que eu tantas vezes tenho inevitavelmente negligenciado. Então está na hora de desacelerar. De fazer mais o que eu gosto e de ser mais feliz no minuto a minuto, a cada hora que passa. O esquema de me arrebentar cotidianamente em nome de uma conquista futura, de um pote de ouro colocado lá na frente, no fim do arco íris, não me serve mais. Essa estratégia fez muito por mim, é verdade. Mas não serve mais

Anúncios

Entry filed under: Geral.

Inovação: competitividade do início ao fim. Jaime Troiano (Fonte: hsm.com.br) Fracassar é primeira lição para aspirantes a líder – Entrevista de David Schmittlein (MIT) para a Revista Veja – Por Nathalia Goulart (Fonte: www.veja.com.br)

1 Comentário Add your own

  • 1. J.C.Cardoso  |  17/02/2012 às 10:55 AM

    É justamente esse “fogo” inicial de carreira que muitas empresas inescrupulosas exploram em seus funcionários.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


fevereiro 2012
D S T Q Q S S
« jan   mar »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
26272829  
Participe com seus comentários!!! Divulgue o blog!! Vamos criar mais um fórum de debates da indústria gráfica!

Tópicos recentes

Feeds


%d blogueiros gostam disto: