Falar bem vs falar do jeito certo – Texto de Adriano Silva – (Fonte: www.manualdeingenuidades.com.br)

03/11/2011 at 10:12 AM 2 comentários

Se você tem algo a dizer, diga. De modo direto ou de modo floreado, não importa. E se você não tem nada a dizer, fique em silêncio.

E tem aquelas pessoas que falam bem. Ou que nem falam tão bem assim, mas aprenderam a falar do jeito certo. Tem dois jeitos de falar bem, a meu ver. Primeiro, o modo sucinto, objetivo, usando o menor número de palavras – as mais precisas possíveis – para ir direto ao coração do problema. É um modo preciso, substantivo de falar – que é estonteante em sua simplicidade. Tem gente que chega a se sentir ofendida, invadida diante de um interlocutor com esse estilo sem arestas. O outro jeito de falar bem é o modo floreado, grandiloquente. Trata-se do sujeito que fala à francesa, mastigando com gosto as palavras, salpicando os termos nas frases e as frases no parágrafo como um chef apaixonado pelos próprios ingredientes. Diante de um orador assim às vezes você entra em alfa, numa espécie de transe linguístico (especialmente se o timbre de voz for agradável), prestando atenção inebriadamente à forma das sentenças e não necessariamente ao seu conteúdo. Embora esses sejam dois jeitos de falar bem, no mundo corporativo, de modo geral, esse segundo estilo equivale a falar do jeito certo.

Esses dias tive uma reunião com uma pessoa adepta desse estilo, que vou chamar aqui de modo adjetivo de falar – em oposição ao primeiro estilo, o modo substantivo de dizer as coisas. E me peguei curtindo aquele encadeamento bonito de frases (mais do que o de raciocínio, é preciso dizer), o uso adequado dos jargões corporativos, a maneira ‘empresarial’ de falar (que cobre tudo com um verniz ‘profissional’, com cara de multinacional, em oposição a um certo modo amador e ‘small business’ de ver e de expressar as coisas). A prosódia apropriada, cadenciada, um certo jeito firme e digno de olhar e de colocar as mãos. Uma certa linguagem corporal pausada, bem comportada mas assertiva. Um certo ritmo ‘gerencial’ de falar, apresentar uma visão, debater um ponto. É bonito de ver.

A existência desse discurso competente afeito ao escritório me chamou a atenção pela primeira vez há quase 20 anos. Um consultor uns 10 anos mais velho me chamava ao engajamento num determinado projeto dizendo: “…se isso fizer sentido para você”. Numa empresa de hierarquia quase militar, aquilo brilhava como ouro. Ele deixava claro que o meu engajamento era esperado, se não compulsório. Mas o fazia de um jeito suave. Não me dava ordens. Me convidava à adesão. O termo soft power ainda não havia sido inventado. Mas, em última análise, era disso que se tratava.

Mais recentemente tenho me deixado encantar com novos ícones desse discurso competente de escritório, desse modo adjetivo de falar, como “compartilhar aprendizagens” ao invés de dizer simplesmente “ver onde estamos errando e corrigir nossas ações daqui para a frente”, por exemplo. Eu guardo uma certa admiração por essa arte de dizer sem causar fricção, de dar o recado sem queimar pontes. (Deixar as pontes intactas é uma das regras fundamentais da empregabilidade como executivo em qualquer mercado.) Adoro assistir a essa construção de uma aparência de segurança e de grande conhecimento de causa quando na verdade, muitas vezes, não se tem a menor ideia do que está falando. Talvez eu nutra carinho por isso precisamente por ser o rei da mensagem direta. Sim, eu sou um adepto do modo substantivo de dizer as coisas. Talvez essas tergiversações me encantem exatamente por isso – porque é algo que eu não sei fazer. (Volta e meia destruo uma ponte ou outra com minha sinceridade radical. Mas já fui pior nisso. Tenho aprendido a ser mais enxadrista.)

Não que essa casca bem construída, nos discursos do modo adjetivo, encontre sempre correspondência no conteúdo que carrega. Diria até que, na maioria das vezes, a grande competência desse discurso é precisamente acobertar um certo vazio interno na mensagem. Quero dizer: às vezes a pessoa capricha na forma porque a substância não vai tão bem assim. Estou tentando fotografar aqui, perceba, uma espécie de dialeto executivo que serve para dar um report ao chefe, para se posicionar numa reunião, para fazer uma apresentação, para explicar um erro ou para propor um job a alguém. Um jeitinho eficiente de se expressar que os consultores tem, que os jovens gerentes bem formados cultivam, que faz a pessoa parecer sem bem formada, bem informada e bem articulada nos corredores das grandes corporações.

Mas o modo adjetivo não funciona sempre tão bem. Numa empresa pequena, em que tudo é mais direto e mais rápido, esse discurso pode soar como impostura. Num negócio menos focado na gestão, na administração, com maior ênfase nas tecnicalidades de uma atividade fim, e não na política corporativa, pense em engenheiros numa linha de produção ou em jornalistas numa redação, esse dialeto pode passar como enrolação. Enfim, há ambientes e pessoas que preferem o modo substantivo e seu papo reto, e sua mensagem passada de modo claro, sucinto e direto. Sem qualquer tipo de lubrificante – um recurso visto como digressão acovardada ou como tergiversação desnecessária ou como perda de tempo ou como simples estratégia de enganação.

Mas também não é sempre que essa embalagem não encontra correspondência no conteúdo que ela se propõe a envelopar. Tem quem fale com todos esses trejeitos e tenha muito a dizer. No final, é assim: é preciso sempre ter o que dizer. Isso é essencial. Se você souber dizê-lo do jeito certo, de modo substantivo, pá pum, ótimo. Se você souber dizê-lo de modo adjetivo, com arranjos florais e meneios por toda a parte, ótimo também. E quando não tiver nada a dizer, fique quieto.

Anúncios

Entry filed under: Geral.

Oito comportamentos que dificultam a comunicação no trabalho – Texto de Bruna Souza Cruz (Fonte: www.uol.com.br) Professor como organizador do conhecimento – Conrado Schloschauer (Fonte: hsm.com.br)

2 Comentários Add your own

  • 1. excelenciagrafica  |  03/11/2011 às 12:24 PM

    Excelente, Botana! Essa é uma preocupação constante minha, mas nem sempre tenho onde ou com quem refletir sobre meus possíveis erros e os ajustes necessários. A maioria das coisas que achei sobre o assunto são voltadas para quem precisa destravar a fala em público. Você saberia indicar algo para eu melhorar a expressão? Valeu, abs!

    Responder
    • 2. flaviobotana  |  03/11/2011 às 12:45 PM

      Fiz há muito tempo um curso com a Thais Alves que achei muito bom! O site é comunicacaodepessoas.com.br. Veja se vale a pena!

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


novembro 2011
D S T Q Q S S
« out   dez »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930  
Participe com seus comentários!!! Divulgue o blog!! Vamos criar mais um fórum de debates da indústria gráfica!

Tópicos recentes

Feeds


%d blogueiros gostam disto: