Dalai Lama propõe novos paradigmas e métodos gerenciais – Texto de Adriana Salles Gomes (Fonte: www.hsm.com.br)

21/09/2011 at 11:05 AM Deixe um comentário

Como os princípios morais, a educação do coração e um novo olhar nas negociações podem revolucionar empresas, mercados e lideranças

Em sua palestra a empresários de São Paulo no último dia 15 de setembro, no evento “Uma nova consciência nos negócios”, iniciativa do Fórum de Líderes Empresariais e da Associação Palas Athena, o que o Dalai Lama propôs foi bem mais profundo do que pode parecer aos que se deixam iludir pela espontaneidade de suas palavras. Transportando para o jargão do meio corporativo, ele sugeriu às empresas nada menos do que novas métricas de desempenho, a adição de um paradigma gerencial além do dinheiro e um novo método gerencial de resolução de problemas.

A mudança é tão ambiciosa e, ao mesmo tempo, tão sensata, que faz por merecer, no mínimo, algumas reflexões e discussões estruturadas nos ambientes de trabalho. A Revista HSM Management estava no evento e destaca, especialmente para o Portal HSM, as quatro principais propostas apresentadas pelo Dalai Lama:

1. A adoção de métricas de desempenho mais abrangentes do que as atuais.
Segundo o líder espiritual, consequências negativas inesperadas são indicadores indiscutíveis de que as coisas vão mal no modo atual de fazer negócios e, apesar disso, continuam sendo desconsiderados nas avaliações das lideranças. Devem ser incluídos com urgência, em sua opinião.

Entre os exemplos que o Dalai Lama citou está o elevado número de gestores com problemas de saúde (um médico norte-americano lhe disse já haver pesquisas relacionando as pessoas desconfiadas que hoje povoam o ambiente corporativo com a maior incidência de doenças do coração), as mortes em massa que houve por conta de guerras e fome no século 20, o congestionamento de carros nas ruas das grandes cidades.

Para ele, tudo isso traz prejuízos aos negócios e é causado pelos negócios em última instância (ou seja, é gerado pelo modo de produção atual). Portanto, tudo isso precisa passar a ser visto como indicador de que o sistema não está funcionando bem.

2. O uso de princípios morais, além de dinheiro, como paradigma gerencial principal.
Não é o dinheiro (ou a busca por dinheiro) que causa os problemas, assim como não é o dinheiro sozinho que os resolve. Se apenas dinheiro resolvesse, observou Sua Santidade, os Estados Unidos, com sua riqueza, não estariam vivendo as dificuldades que vivem atualmente.

De acordo com o líder espiritual, as pessoas devem começar a entender a verdadeira causa da maior parte dos problemas correntes: a falta de princípios morais. É o que faz com que as pessoas se sintam solitárias por dentro e suspeitem de todo mundo – o que as leva à ganância e, por tabela, às especulações que vêm causando as últimas crises financeiras.

A adoção de princípios morais entre as pessoas corporativas levaria as corporações a acabarem com a hipocrisia reinante e a serem verdadeiramente transparentes.

A corrupção, que existe tanto em governos como em empresas, alimenta-se dessa falta de princípios morais, raciocinou o Dalai Lama, e gera mais e mais problemas. Sua Santidade não poupou a mídia nesse diagnóstico: ”a mídia tem nariz comprido”, disse, numa alusão ao mentiroso Pinóquio, acrescentando que é preciso inserir princípios morais também nos meios de comunicação.

Ozires Silva, fundador da Embraer e organizador do Fórum de Líderes, já tinha se queixado do viés – ultrapassado – da mídia, que é o de priorizar as más notícias, o que funcionaria como um reforço negativo (e deseducativo) sobre a sociedade.

A lógica por trás do que disse Silva é: o bom, muitas vezes, é mais raro e relevante do que o ruim e, por isso, merece mais destaque jornalístico. Voltando ao raciocínio do Dalai Lama, a mídia estaria focando o ruim também por medo, ou seja, por suspeitar intrinsecamente de todas as pessoas –de novo, a ausência de princípios morais está na raiz do problema.

3. Uma reforma educacional mundial, visando ensinar primeiro ao coração e depois ao cérebro – e que seja secular.
Frisando que não tem nada contra a ciência e a tecnologia, o Dalai Lama alertou que seus usuários podem oferecer grandes riscos à sociedade se seus corações não forem devidamente educados.

A provocação de Sua Santidade se mostrou, no mínimo, interessante: para ele, o verdadeiro embate educacional não está entre conteudismo e construtivismo, como se discute hoje, mas na necessidade de priorizar, ativamente, o cultivo da inteligência emocional (dos princípios morais), para, só depois, cultivar o cérebro. Assim, sentimentos como compaixão devem ser ensinados e nutridos nas escolas.

Quando mencionaram na plateia a baixa qualidade da educação no Brasil, Sua Santidade observou: o Japão e outros países asiáticos têm alta qualidade de educação e uma taxa de suicídio crescente entre os estudantes; há algo errado nisso, não?

No entanto, essa educação do coração não pode ser, jamais, vinculada a alguma religião, segundo o Dalai Lama.Essa educação do coração precisa, obrigatoriamente, incluir o respeito à diversidade das opções religiosas e à não religião também.


4. Uma mudança radical no método atual de resolução de problemas.

Mostrando realismo, Sua Santidade afirmou que os problemas nunca acabarão por completo –problema sempre existirá. O que ele pregou foi que o método tradicional de resolver problemas (pela força, baseado em poder) seja substituído por um método mais espiritual e eficaz, que é o da negociação. Não importa quanto demore nem quanto custe, a negociação deve ser o princípio inegociável da resolução de problemas. Sua maior eficácia é indiscutível, advogou o Dalai Lama.

Comunicação despretensiosa

A cobertura do líder do budismo tibetano não costuma ser fácil para jornalistas de economia e negócios. E não apenas por seu inglês de pronúncia quase ingênua. Nem exatamente pelas palavras simples que substituem o discurso cartesiano e rebuscado próprio do “media training” a que tantos empresários e executivos recorrem. É que, diferentemente até do que se encontra em seus livros ou no conteúdo disponibilizado pelos organizadores dos eventos de que participa, Sua Santidade tece seus conceitos e raciocínios de maneira tão leve e despretensiosa, que, somado à escolha das palavras e à pronúncia, isso pode soar como auto-ajuda para os desatentos. No entanto, a mensagem desse líder espiritual jamais pode ser confundida com a superficialidade dos livros de auto-ajuda, como se percebe em suas propostas.

* Adriana Salles Gomes é editora-executiva da revista HSM Management desde sua criação, em 1997.

(Comentário do blogueiro: a cada depoimento sobre o Dalai Lama, aumenta mais e mais o respeito e a admiração que tenho por este líder. Ele é, sem dúvida, uma das minhas grandes referências)

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Dossiê – Mídia e Entretenimento / Um mercado fragmentado (Fonte: Revista HSM Management – nº 88 – Setembro/Outubro 2011) Ouvir mais e falar menos (Fonte: www.hsm.com.br)

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