O desafio dos livros digitais- Texto de Elisabete Pereira (Fonte: Revista Tecnologia Gráfica)

19/07/2011 at 9:42 AM Deixe um comentário

Gráficas começam a oferecer ao mercado editorial a transformação dos livros em e books. O ePub é o formato preferido.

O Senai-SC anunciou recentemente que ainda no primeiro semestre de 2011 implantará tablets como ferramentas pedagógicas em uma turma da cidade de Tubarão. Na mesma época, a Universidade Estácio de Sá divulgou que seus alunos do curso de Direito no Rio de Janeiro e Espírito Santo receberão gratuitamente tablets no segundo semestre para terem acesso a uma biblioteca com trechos de livros usados nas disciplinas.

Esses são dois exemplos, limitados ao universo educacional, de quão rápido vem se disseminando o consumo de conteúdo antes restrito ao suporte papel. Esbarramos com eles diariamente e na maioria das situações esses exemplos apontam para a expansão das soluções digitais. De acordo com dados divulgados pela Associação de Editores Americanos (AAP), as vendas de livros digitais nos Estados Unidos em dezembro de 2010 cresceram 164,8%, somando US$ 49,5 milhões. No acumulado do ano, a elevação foi de 164,4%, totalizando US$ 441,3 milhões.

Enquanto isso no Brasil as editoras apressam-se para lançar títulos no formato digital, ao mesmo tempo em que tramita no Senado Federal o projeto de Acir Gurgacz (PDT-RO) alterando a Política Nacional do Livro para incluir qualquer livro em formato digital, magnético ou óptico no rol dos produtos isentos de impostos. Pelo projeto também ficarão equiparados aos livros os equipamentos cuja função exclusiva ou primordial seja a leitura de textos, como o Kindle e o iPad.

No mar de questionamentos em que navegam geradores de conteúdo, editoras e prestadores de serviço, uma certeza é a de que os livros digitais já representam um nicho de mercado. Estimar a velocidade de crescimento desse segmento é um exercício de futurologia ao qual se dedicam pesquisadores como o americano Robert Darnton, diretor da biblioteca de Harvard e autor de A questão dos livros. Ele defende a ideia de que o livro tradicional pode conviver com a versão digital. “Acredito que as pessoas ainda não entenderam quais são as mudanças provocadas por essa revolução [dos livros digitais]. Comenta-se muito que vivemos na era da digitalização. É verdade, mas isso não significa obrigatoriamente a morte do livro tradicional. Ao contrário: ele se torna mais importante a cada ano. Basta conferir a quantidade de obras impressas que, anualmente, ultrapassa a do anterior. Aproximadamente 1 milhão de livros a mais são impressos em todo o mundo em um ano, uma loucura”, afirmou o pesquisador em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

Nos bastidores das discussões mercadológicas e culturais há a questão técnica: o processo de conversão ou transformação do livro em algo que possa ser lido nos dispositivos digitais.

Atualmente, o ePub é o padrão internacional de formato eletrônico preferido pelo mercado editorial para e-books. Foi desenvolvido pelo International Digital Publishing Forum (IDPF), formado por empresas como Sony, Adobe, Microsoft e Hewlett Packard e responsável pela regulamentação dessa nova mídia. O ePub é um arquivo aberto que permite alterar o tamanho da fonte e ajustar a dimensão da página de acordo com o dispositivo utilizado. Outra vantagem de um livro feito nesse sistema é a possibilidade de leitura do mesmo e-book em vários leitores digitais (iPad, Alpha, IRiver, Kindle, iPhone, PC, netbook).

Cartilha orienta trabalho da Geográfica

Algumas gráficas já estão entendendo o livro digital como um produto que pode ser incorporado ao seu portfólio, como é o caso da Geográfica, de Santo André (SP). “Existem muito mais perguntas do que respostas com relação ao futuro do livro, mas a mudança do livro físico para o digital será mais rápida do que se imagina. Os livros de papel não irão morrer. Ao contrário, as editoras que têm suas publicações em meio digital alavancam as vendas de livros físicos.” A análise de Ariel Vido, gerente de pré-impressão da Geográfica, vem da experiência no dia a dia da empresa e da participação em eventos realizados no mundo sobre o livro digital.

A entrada da Geográfica no mundo do ePub surgiu a partir do telefonema de um grande cliente perguntando se a empresa poderia ajudá-lo em um novo desafio. “Isso desencadeou uma corrida em busca de profissionais e conhecimento e nos aproximou ainda mais de nossos clientes. Até desenvolvemos um minicurso, que nos trouxe muitos resultados positivos. A troca de conhecimento foi fantástica”, conta o gerente.

Hoje, uma equipe de sete pessoas, formada por profissionais das áreas de design digital, programação e da própria produção, cuida exclusivamente dos ePubs. Por ser um processo trabalhoso, as etapas são subdivididas em vários passos. O aprendizado gerou uma cartilha de acompanhamento que ajuda a seguir todos os procedimentos para que nada fique de fora. “O prazo entre a chegada dos arquivos e a entrega do ePub revisado pode chegar a seis semanas. São muitos detalhes e nosso objetivo, sempre, é entregar ePubs com a mesma qualidade dos livros de papel”, justifica o executivo.

Na Geográfica o processo de transformação do livro físico em e-book começa com uma revisão completa na aplicação dos estilos de parágrafo e caracteres e eliminação de itens que não são utilizados pelo ePub (páginas mestras, numeração de páginas etc.). A seguir, o texto é dividido em suas respectivas partes e prepara-se o estilo da Table of Contents (TOC), que é exportado em ePub. Faz-se os ajustes necessários no código XHTML no Dreamweaver (software que faz parte do CS5 da Adobe) e depois a certificação do ePub no ePubCheck 1.2, ferramenta que valida a nova mídia (ePub) de acordo com as normas do IDPF.

Atualmente, a Geográfica é, segundo a própria empresa, a única do Brasil afiliada ao IDPF (idpf.org), a gestora do ePub, o que facilita seguir todos os avanços e discussões em torno do novo formato, que está prestes a ganhar uma nova versão, a 3.0, com diversas implementações como áudio, vídeo e animação.

De acordo com Ariel Vido, o ePub tem se mostrado o formato padrão do mercado. Apesar de usarem formatos diferentes, a Amazon e a Barnes & Noble, por exemplo, aceitam arquivos em ePub e internamente fazem as conversões para que os livros digitais funcionem dentro de seus padrões (loja/dispositivo de leitura).

Como o mercado editorial tem utilizado maciçamente o InDesign, um arquivo bem diagramado nesse formato é a matriz do ePub, explica o gerente. “Cerca de 70% da produção de um ePub pode ser feita a partir de um arquivo de InDesign bem estruturado”. De acordo com ele, no momento as ferramentas disponíveis no mercado são suficientes. Para se adequar à nova demanda a Geográfica precisou investir em alguns plug-ins de InDesign, como o PDF to InDesign e Quark to InDesign, além do Dreamweaver. Mais recentemente, Ariel Vido conta que surgiu o Sigil (code.google.com/p/sigil/), um programa gratuito “que ainda tem muito a ser melhorado, mas que rapidamente foi incorporado no processo de conversão porque é um encurtador de caminhos”.

Novo nicho para a Livraria Cultura

Em março do ano passado, a Livraria Cultura começou a comercialização de livros digitais. Na mesma época, passou a oferecer o serviço de conversão para o mercado. “A demanda está crescendo mês a mês, mas não chega a 1% do faturamento da empresa. Nosso objetivo é alcançar 5%, em dois anos”, prevê Mauro Widman, coordenador da equipe de e-books da livraria.

Ele considera o livro digital como um novo nicho de mercado e, a exemplo do que acontece no exterior, onde essa nova mídia tem ajudado a impulsionar as vendas de livros impressos, o mesmo ocorrerá no Brasil: a pessoa compra o e-book, começa a ler, gosta e vai à livraria buscar o livro físico. “Acredito que, futuramente, daremos desconto para quem adquirir os dois produtos em um pacote só”.

A Cultura também elegeu o ePub como o melhor formato para os leitores digitais, pois com ele o leitor consegue utilizar o livro eletrônico na sua melhor forma. Para transformar uma obra em um livro digital, a livraria utiliza uma versão de PDF para ePub, usual para os e-books, mas que necessita de ajustes manuais para garantir a qualidade da conversão. “Ainda não existe um programa completo para essa finalidade. Mesmo as ferramentas que encontramos no mercado, como o InDesign, não são suficientes. Assim, esse serviço permanece, em grande parte, manual”.

De acordo com Mauro Widman, as editoras, sobretudo as menores, são as que mais terceirizam esse serviço, pois nem sempre contam com pessoal especializado. “Para fazer uma conversão de qualidade é necessário um conhecimento sólido em informática”. Segundo o executivo, livros de diagramação simples, com textos corridos e poucas variações de parágrafos, exigem menos de um dia para a conversão. Livros mais complexos, com notas de rodapé, diagramação diferenciada, com tabelas e ilustrações, dão mais trabalho, necessitando uma revisão rigorosa. Nesse caso, a conversão pode durar até duas semanas.

Qualidade é o foco da Simplíssimo

“Para que um livro se transforme em e-book, primeiro de tudo é necessária a compreensão das editoras de que o formato digital não é uma moda passageira. O momento atual é de transição de um modelo de negócios exclusivamente de livros impressos para outro, de convivência entre o digital e o impresso”, afirma Eduardo Silveira Cabral de Melo, fundador e diretor executivo da Simplíssimo Livros.

Do ponto de vista técnico, o executivo explica que é necessário que o arquivo digital original da obra seja, preferencialmente, em formato aberto (InDesign, Quark, PageMaker, Ventura, Word). “Evitamos produzir livros eletrônicos a partir do PDF por ser um tipo de arquivo fechado, que dificulta a transformação do conteúdo e não permite um trabalho de melhor qualidade”.

Eduardo de Melo faz questão de esclarecer que o serviço prestado pela Simplíssimo não é conversão. “Existe um abismo separando a produção para o formato ePub e a conversão, que é um processo automatizado ou semiautomatizado, realizado sem muitos cuidados, com o resultado final com pouca ou nenhuma qualidade. Qualquer pessoa pode fazer, inclusive existem softwares gratuitos disponíveis na internet para essa finalidade”. Ele alerta, porém, que o resultado não compensa: “Os e-books não abrem direito, travam os aparelhos, apresentam visual descuidado, parágrafos inteiros perdidos e falhas sistemáticas ao longo do texto”.

Para Eduardo de Melo, há no mercado uma variedade de soluções para trabalhar com livros digitais. Contudo, ele frisa que não existe uma ferramenta específica que resolva tudo (não ainda, pelo menos). “Boa parte do trabalho de produção de um livro em formato ePub deve ser feita manualmente, para ter qualidade. Não existe mágica. É preciso entender o formato do ponto de vista técnico para fazer um livro digital com padrão profissional”.

Na Simplíssimo, a transformação dos livros para ePub é realizada por profissionais experientes nesse formato. “Cada livro tem seu conteúdo extraído com cuidado do arquivo original, não importa o formato. É feita a revisão comparativa entre o original e aquele a ser inserido na versão eletrônica, para evitar perdas ou cortes. Só depois disso iniciamos a produção do e-book, que é manual”. Por ser um trabalho complexo, lotes com até 100 livros são produzidos em cerca de quatro semanas. Pedidos urgentes podem ser atendidos em menos tempo.

Desde março do ano passado a empresa oferece esse serviço ao mercado. A produção enfoca essencialmente o ePub, mas também podem ser produzidos outros formatos, como o Mobi, que funciona no Kindle. Fazem parte da lista de clientes que produzem livros digitais com a Simplíssimo as editoras Zahar, Sextante, Sesc-SP, Bei, Martins Fontes e Manole. O envolvimento é tão forte nessa área que a empresa está oferecendo treinamento sobre como produzir obras no formato ePub(www.simplissimo.com.br/blog/cursos), voltado aos designers, diagramadores, editoras e freelancers. Uma novidade é a parceria com a italiana Simplicissimus Book Farm, com a qual a Simplíssimo está desenvolvendo a SBF School, um sistema de aprendizado eletrônico com cursos abordando a produção de livros digitais de alta qualidade.

Soluções em softwares

Integradora de tecnologias, a Electronic Graphics representa alguns dos principais softwares de fluxo de trabalho para os mercados gráfico, editorial e corporativo, como Dalim, Xinet, GMG, iBrams e Vjoon. Para atender à nova demanda, a empresa oferece soluções da Vjoon e da Adobe. O Vjoon K4 é um sistema para o gerenciamento de publicações, baseado nos softwares Adobe InDesign e Adobe InCopy, que permite organizar e estruturar qualquer fluxo de trabalho e controlar o processo de produção para vários canais de publicação, como impressão, livros digitais, tablets, internet, dispositivos móveis e outros, como detalha Renato Luiz Ramos, diretor técnico da empresa. “Basta que o conteúdo esteja no formato digital e que seja usado um software específico para passá-lo para o formato digital, conforme a necessidade da empresa”.

No Brasil, um cliente da Electronic que utiliza essas ferramentas para a prestação de serviços para o mercado editorial é a Formato Artes Gráficas, de Belo Horizonte. No mundo, entre as empresas que utilizam essas soluções estão a McGraw-Hill Education e a Condé Nast Publications, que tem como um de seus mais importantes títulos a revista Wired, além de clientes corporativos.

Fonte: Revista Tecnologia Gráfica edição nº 77

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