Sucessão Familiar: uma direção perigosa – Texto de André Acioli (HSM Online)

08/02/2011 at 10:21 AM 2 comentários

Artigo do administrador André Acioli critica o modelo de sucessão familiar desqualificada. Confira!

Para quem não tem filhos, hotel fazenda é um programa bastante sem graça, normalmente. Junto com toda a família, e ela inclui os dois pequenos que tenho, resolvi cumprir o ritual que se aplica há vários anos: passar o Reveillon no hotel fazenda.

Para encurtar a história, é um hotel com uma infraestrutura razoável – sem grandes diferenciais. Por sermos assíduos frequentadores em finais de ano, temos a sensação de que temos atenção especial, principalmente as crianças, por parte da excelente equipe de recreação. Por isso vamos lá.

Após a morte do dono, em 2008, os quatro filhos – que só iam ao hotel a passeio – resolveram tomar as rédeas do negócio.

É um quadro que se repete comumente em empresas familiares. Em alguns casos, por já estarem envolvidos nas atividades, os herdeiros vão em frente e dão continuidade às atividades da empresa.

Em outros, menos raros, assumem sua incapacidade – seja por conhecimento ou por interesse – e contratam profissionais para assessorá-los na gestão do negócio; e, claro, aqueles em que, às cegas, preferem arriscar mais alto, tornando-se os próprios gestores, como neste caso.

Como qualquer pessoa que começa a ter aulas de direção, os quatro donos tomam assento e fazem o carro andar. O medo está presente, mas na medida em que o carro se desloca, sem acidentes, o motorista se torna mais autoconfiante.

Assim foram os primeiros meses dos quatro herdeiros: com muito cuidado para errar o menos possível, sem tentar manobras mais ousadas, mantendo firmes os olhos no retrovisor e andando em primeira, quando muito, segunda marcha.

Segundo John Davis, uma das maiores autoridades mundiais em gestão de empresas familiares, uma empresa familiar é um sistema alicerçado em três pilares: a família, a propriedade e os negócios.

Quando a governança corporativa é exercida pelo chefe da família, dúvidas e conflitos tendem a ser mais facilmente resolvidos. Entretanto, quando pela falta do chefe, a governança – entendida como direção e não como gestão – torna-se vulnerável. Os interesses individuais afloram e os conflitos surgem com mais frequência. Claro é que a instabilidade familiar compromete o funcionamento da empresa.

Os primeiros sinais da instabilidade puderam ser vistos na virada de 2009 para 2010. Maximização do lucro a qualquer preço! Parece ser este o lema dos herdeiros. Não existem fórmulas mágicas: aumentam-se as receitas e/ou cortam-se os custos.

Na estada para o Reveillon de 2010, o número de opções de pratos havia sido reduzido, o preço das bebidas aumentado acima da média, o corrimão do escorregador infantil estava quebrado, a grama do campo de futebol e dos jardins não estava aparada, mas nada que comprometesse a boa estada no hotel que, como nos anos anteriores, parecia lotado.

Hoje, um ano depois, acabo de voltar de lá. O corrimão do escorregador foi reparado (pena que meu filho não queira mais usá-lo), mas muito mais coisa mudou. A grama virou mato, o número de opções de pratos nas refeições é ainda menor; as bebidas ainda mais caras; o atendimento ruim (pela alta rotatividade dos funcionários, pela falta de treinamento, pela ausência de supervisão), as toalhas de banho envelhecidas e encardidas.

O glamour da ceia passou por copos plásticos para o champanha de 500 ml oferecido a cada família e pelo pífio som ao vivo proporcionado na noite da virada, aos hóspedes que ocupavam cerca de 70% do hotel. Não bastasse a descaracterização do produto que sempre nos levou até lá, o hotel oferece agora festas abertas ao público, em determinado dia da semana, que se estendem até a madrugada.

Apesar de inexperientes, motoristas habilitados há um ou dois anos acreditam-se verdadeiras feras do volante. Aceleram, freiam em cima do carro da frente, cortam caminhos sobre calçadas, “tomam o vácuo” para fazer ultrapassagens e acham que as recomendações de segurança não foram feitas para eles.

É o momento dos quatro herdeiros. Julgam-se azes da direção. Cada um se sente plenamente seguro da própria autoridade, mas todos desconhecem o significado da palavra responsabilidade.

Que o digam seus funcionários, clientes, fornecedores e o seu contador. Como para aqueles que não sabem para onde vão, quaisquer caminhos servem, a continuar assim, infelizmente, um acidente grave será inevitável e a perda, total.

André Acioli (Administrador, mestre pelo Coppead-UFRJ, consultor de empresas, professor universitário na Mackenzie Rio e Chef fundador do Boteco do Conhecimento)

Portal HSM

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2 Comentários Add your own

  • 1. J.C.Cardoso  |  08/02/2011 às 11:59 AM

    Costumo dizer que empresa de família não pode crescer. A sucessão familiar pode dar certo na padaria da esquina, no bar do português, na casinha de materiais de construção. Mas exemplos grandes (e famosos) já mostraram que quando cresce, o rumo é outro: quem não se lembra do Banco Nacional ou, no caso aqui do Rio, da Importadora Guanabara?
    Acho que há duas questões: às vezes, o herdeiro não tem “tino” para comércio, como o pai. E às vezes, a sensação de pegar o dinheiro fácil pronto (como um prêmio de loteria, que, aliás, fazem dos ganhadores perdedores em pouco tempo) de um patrimônio construído a duras penas… Não houve esforço por parte do herdeiro no investimento do negócio. O berço esplêndido de uma hora para outra pode levar a uma administração “sem noção”.

    Responder
  • 2. Direção Perigosa « Boteco do Conhecimento  |  08/02/2011 às 2:18 PM

    […] ..   Blog de Flávio Botana ..   Blog do Advogado Telmo Silveira Comente! […]

    Responder

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