O dilema de Matusalém – Texto de Fábio Arruda Mortara (Revista Abigraf)

08/11/2010 at 11:28 AM 1 comentário

Quando os povos da Mesopotâmia, no Oriente Médio, criavam a linguagem escrita, há quase cinco mil anos, do outro lado do mundo, mais precisamente nas Montanhas Brancas da Califórnia, florescia um pinheiro da espécie Pinus longaeva, hoje uma portentosa árvore, considerada por muitos estudiosos o ser vivo mais antigo do Planeta. Matusalém, como foi carinhosamente apelidada, testemunhou como a capacidade de dar significado lógico a caracteres impressos mudou o destino da humanidade. Sim, pois o progresso nesses cinco milênios foi radical e infinitamente maior do que nos milhões de anos anteriores.

A velha árvore assistiu ao florescimento do Egito e da Grécia Clássica, contemplou a ascensão e queda do Império Romano, foi suserana de sua linda montanha no período medieval, vivenciou o Renascimento, a Idade Moderna e a Contemporânea. Chorou mil guerras, emocionou-se com a grandeza e a sabedoria e se chocou ante a mesquinhez e a loucura do bipolar Homo sapiens. Arrepiou-se de medo quando europeus e norte-americanos devastaram florestas inteiras nos séculos 19 e 20, à revelia da preocupação ambiental. Revigorou-se de otimismo ao perceber a aurora da consciência sobre a sustentabilidade, meta que anima parcela cada vez mais expressiva dos seres humanos e suas instituições.

Aos seus jovens vizinhos e primos, pinheiros de apenas mil anos com os quais vive nas altitudes das Montanhas Brancas, a velha árvore teria confessado, um dia, o seu drama de consciência: “Os pergaminhos dos escribas, o papel dos livros e revistas e de todos os impressos advêm de matéria-prima vegetal. Não haveria como conciliar a indispensável comunicação gráfica com a preservação das florestas nativas?”.

A resposta a Matusalém está no conteúdo da Campanha de Valorização do Papel e da Comunicação Impressa, da qual são signatárias 22 entidades de classe brasileiras integrantes dessa grande cadeia produtiva e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que se soma à defesa de um setor fundamental para o desenvolvimento. Como tem sido amplamente difundido, o propósito da iniciativa é deixar claro que cem por cento do papel produzido no Brasil para atividades de impressão procedem de florestas cultivadas. Ou seja, não se derruba um arbusto nativo sequer no País para que nossas crianças tenham livros e cadernos e possamos ler jornais e revistas, acondicionar produtos em seguras e criativas embalagens de papel-cartão e desfrutar de todos os benefícios com os quais a mídia impressa contempla nossa civilização.

Portanto, se depender da indústria gráfica e da cadeia produtiva da comunicação impressa no Brasil, a flora amazônica, a da Mata Atlântica e a de nossas matas ciliares sobreviverão para testemunhar a aventura do homem nos próximos milênios. Ante a assertiva resposta, a velha árvore norte-americana faz sua fotossíntese aliviada. Nada é mais eficiente do que a informação correta para que se possa entender melhor o mundo e defender crenças e convicções com base em elementos verdadeiros.

O dilema de Matusalém é o mesmo de numerosas pessoas. Afinal, todos entendem a sua importância para a sociedade e amam livros, revistas, jornais, cadernos e outros produtos impressos. Ao mesmo tempo, preconizam a preservação e a sustentabilidade das florestas. Por isso, é lamentável a desinformação sobre o tema que se dissemina no País, tornando essencial a campanha de esclarecimento que estamos fazendo. Esta é uma luta na qual não devemos esmorecer um segundo sequer, inclusive porque a consciência ecológica, consentânea da informação e da cultura difundidas na comunicação gráfica, é imprescindível para que a atual e as futuras gerações selem indissociável compromisso com a preservação do Planeta.

Publicado na Revista Abigraf nº 249

*Fabio Arruda Mortara, empresário, é presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf Regional São Paulo) e do Sindicato da Indústria Gráfica no Estado de São Paulo (Sindigraf-SP).

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1 Comentário Add your own

  • 1. J.C.Cardoso, seu ex-aluno do Rio  |  08/11/2010 às 1:22 PM

    Botana, me lembrei desse texto, abaixo. Li-o há muitos anos, no tempo de colégio. O autor, Erasmo Braga, foi educador e jurista brasileiro. Aqui no Rio, dá nome à rua (e acho que não por acaso) do TJ, no Centro do Rio.

    Autobiografia

    “Nasci na encosta de um outeiro. E fiquei, dentro em pouco, um pinheiro delgado e elegante. Tão elegante que uma senhora, passando com seus filhos por perto de mim, desejou-me para árvore de Natal.
    – Como ficará lindo carregadinho de presentes e de doces, com as velinhas de cores – exclamou uma das meninas que acompanhavam a senhora.
    Estremeci até as raízes, pensando que logo me haviam de arrancar para, no grande e festivo dia das crianças, ir adornar o salão de uma escola ou de uma casa abastada.
    Passaram-se, porém, muitos anos e ninguém veio buscar-me para a festa do Natal. Minhas raízes aprofundaram-se mais; meu tronco tornou-se alto e forte; estendi para o céu ramaria possante, que as tempestades não puderam derribar. Todos os anos as pinhas enfeitavam meus galhos; e, quando amadureciam, aves, animais e homens vinham à minha sombra colher os frutos, que se espalhavam pelo chão. Eu era a maior e a mais bela de todas as árvores daquela região.
    Mas o dia funesto chegou. Um homem aproximou-se de mim, olhou-me com atenção de alto a baixo, e fez, a facão, um sinal no meu tronco. Vieram depois operários musculosos, de machado em punho; e logo estava eu deitado no solo, com os ramos partidos. Estava reduzido a um simples madeiro – eu, o rei dos vegetais de toda aquela redondeza…
    Arrastaram-me, em seguida, para uma fábrica e reduziram-se a uma polpa branca. Nenhum dos meus camaradas me houvera reconhecido, quando transformado em alvo lençol, sofria a última demão, a fim de aparecer no mercado sob a forma de papel. Que torturas padeci: os golpes mortíferos do machado, o talho agudo das lâminas que me dilaceravam, o aperto horrível de engrenagens que me esmagavam, o atrito áspero de mós que me pulverizavam, o ardor das drogas que me fizeram pálido… Depois de tudo isso, colocaram-me em uma prensa, da qual saí enfardado para uma longa viagem.
    Vendeu-se um negociante a um impressor. Fui para uma tipografia, onde novas angústias me esperavam. Puseram-se em um prelo, no qual, em giros vertiginosos, palavras e gravuras eram sobre mim estampadas. Dobraram-me depois. Cortaram-me. Coseram-me. Cobriram-me com duas capas de cartão. E eis-me aqui, agora, meu amigo, para ir contigo à escola.
    Não me maltrates nem me desprezes. Muito sofri para trazer-te a sabedoria dos antigos, as lições de experiência, a expressão dos prosadores e poetas, que enriqueceram tua língua materna e fizeram meigo e suave teu idioma.
    Ama-me e lê-me: eu sou o teu livro.”

    Erasmo Braga (1877-1932)

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