Livro interativo limita capacidade de imaginação, diz diretor da Feira de Frankfurt – Entrevista de Juergen Boos para Marina Lang da Folha de São Paulo

20/04/2010 at 9:12 AM 1 comentário

Um livro que fala, canta, tem ilustrações animadas e tecnologia 3D. Há dez anos essas características seriam fantasia de filmes de ficção. Mas, daqui a outros dez, elas devem vigorar –e com a força total de um mercado em expansão.
O livro digital multimídia –que compila outros atrativos além da leitura trivial, como dublagem e animações– mal começou a ser desenvolvido na rota do mercado e, mesmo assim, já foi alvo de críticas pela possível subtração da capacidade imagética dos leitores.
A opinião é compartilhada por Juergen Boos, diretor da Feira do Livro de Frankfurt, um dos maiores eventos mundiais voltados ao segmento, que ocorre anualmente na Alemanha.
Em entrevista à Folha, Boos fala da limitação que o e-livro multimídia traz à imaginação do leitor. Mas acrescenta: “para livros profissionais ou de não-ficção, isso pode ser uma tremenda vantagem”.

FOLHA – O que o senhor pensa sobre o iPad? O que ele representa para o mercado editorial?
BOOS – O iPad é um dispositivo fascinante. O que eu acho problemático, no entanto, é o fato de que se trata de um sistema fechado, que não permite a troca com outros sistemas.
Assim, estou certo que muitos mais dispositivos aparecerão no mercado nos próximos meses, que serão comparáveis ao [sistema do] iPad em termos das suas funções de multimídia, e que vão criar concorrência.
Em princípio, não existem limites para esse desenvolvimento, e estou realmente ansioso para ver quais os produtos que vão surgir nos próximos meses.

FOLHA – O senhor acredita no conceito dos livros multimídia que incorporam animação, gráficos, narração e interatividade?
BOOS – O e-book ainda está nas fases iniciais de desenvolvimento, e oferece inúmeras possibilidades.
A integração de fotos, animações e outros elementos interativos será certamente um aspecto que fará com que esta mídia seja particularmente atrativa no futuro.

FOLHA – Dentro desse conceito, o senhor crê que os leitores possam perder sua capacidade de criar suas próprias imagens e construção narrativa na leitura de livros multimídia?
BOOS – Quando eu leio um romance, a minha imaginação embarca em uma jornada. Eu imagino como um personagem deve se parecer, a figura definida do personagem e que tipo de voz que ele ou ela possa ter.
Eu fico total e completamente imerso na história. O e-book multimídia impõe limites para minha imaginação, desde o início, porque eu sou abastecido com imagens precisas.
Por outro lado, para livros profissionais ou de não-ficção, isso pode ser uma tremenda vantagem.
Mas espero sinceramente que a nossa capacidade de explorar o poder de nossa imaginação, como um resultado [da leitura], não se perca por completo.

FOLHA – Com dispositivos digitais, o custo do livro reduz drasticamente. Sob esta ótica, qual a perspectiva para o mercado editorial?
BOOS – Não ocorre, necessariamente, a situação de que a produção de um e-book é substancialmente mais barata do que um livro impresso. Sim, o processo de impressão não faz parte da equação, mas o processo de produção de um e-book é mais complexo, pois ele deve ser preparado de forma completamente diferente.
Acima disso, na Alemanha existe o problema adicional do preço fixo do livro [a regulamentação alemã exige que todos os livros, digitais ou não, sejam vendidos sob mesmo preço; descontos são ilegais no país].
Exatamente como os preços dos e-books devem ser determinados já é objeto de intenso debate na indústria.

FOLHA – Existe a possibilidade de ocorrer a supressão do livro impresso?
BOOS – Quando o audiobook chegou no mercado, as pessoas também pensaram inicialmente que eles iriam substituir os produtos impressos –mas eles se revelaram complementares.
Estou convencido de que o livro impresso não morrerá, mas que o livro eletrônico vai se tornar um componente adicional e substancial da nossa socialização por meios de comunicação –como foram antes o rádio, a TV e a internet.

FOLHA – Qual o panorama atual das vendas de livros eletrônicos?
BOOS – Um estudo recente sobre os e-readers prevê que haverá cerca de 50 modelos no mercado em 2010.
Com base em estimativas conservadoras, o número de leitores eletrônicos vendidos na Alemanha, em meados de 2011, será em torno de 170 mil. E cerca de 65 mil livros eletrônicos foram vendidos nos primeiros seis meses de 2009 na Alemanha.
Os números são simples. A partir deles, podemos deduzir que a demanda do cliente sobre a informação está aumentando, mas a vontade de comprar ainda é pequena. No entanto, tudo pode mudar em breve.
Com relação ao Brasil, infelizmente, não há dados disponíveis no mercado. Será muito interessante observar o desenvolvimento desse mercado aí.

FOLHA – O que o senhor pensa a respeito da criação de um formato padrão para arquivos de e-book?
BOOS – Os usuários não querem sistemas fechados –caso eles tenham boas alternativas. Por isso acho que um formato padrão e-book será estabelecido a longo prazo –como foi o caso da indústria da música com o formato MP3, por exemplo. Qual será esse formato é algo que ainda está sendo visto.

Folha Online
07/04/2010

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