Perspectivas para a Indústria Gráfica no Pós Crise

27/10/2009 at 9:44 AM 1 comentário

Escrito por Flávio Botana
Publicado na Revista Tecnologia Gráfica no. 68 – Outubro 2009

Uma crise “talvez” esteja se acabando. É bom começarmos a nos preparar para a próxima!

Um dos assuntos que tem sido alvo de grandes discussões no mundo dos negócios nos últimos meses é, sem dúvida alguma, a crise econômica mundial que realmente balançou os alicerces do mundo econômico e político e causou efeitos em maior ou menor grau para todos nós.
E dentre tudo que ouvi sobre o assunto, destaco a brilhante palestra do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no 14º. Congraf que se realizou em Novembro de 2008, onde ele nos mostrou, entre outras coisas, o caráter cíclico das crises econômicas, o que daria uma certa previsibilidade do que poderia ocorrer. Lembro que esta palestra ocorreu nos primeiros momentos da crise onde o grau de incerteza sobre o que viria era altíssimo.
E a análise desta visão cíclica das crises me levou a duas reflexões. A primeira é a de que o mundo não iria acabar com esta crise. Percebe-se , e novamente isto foi claramente demonstrado pelo Professor Fernando Henrique, que o mundo vem aprendendo com as suas crises e consegue entender e enfrentar melhor as que vem pela frente. O exemplo típico foi uma série de erros políticos em relação ao sistema bancário que ocorreram na crise de 1929, que não se repetiram na atual crise e que foram decisivos para o início da retomada da ordem econômica mundial.
Porém a segunda reflexão é um pouco mais cruel. Tem-se a certeza de que outras crises virão. Mais violentas ou não, mais frequentes ou não, mais catastróficas ou não, vindas dos países emergentes ou dos desenvolvidos, enfim, não se sabe como elas serão e nem quando elas irão ocorrer, mas que virão não se tem dúvida.
Além disso, existe um outro aspecto que deve ser ressaltado quando falamos de crises, que é o efeito delas na gestão das empresas.
Culpa-se a crise por uma série de problemas, mas o que me parece muito claro é que a crise não “gera” problemas de gestão. Ela apenas “evidencia” problemas de gestão que já estavam lá, mas que por conta da prosperidade e/ou abundância e/ou cegueira gerencial não eram visíveis.
A produtividade baixa, os altos custos, a equipe pouco capacitada, o descontrole sobre a inadimplência e sobre o endividamento e outros itens que destroem uma empresa estavam lá, porém uma carteira de pedidos cheia, um caixa suficiente, crédito em abundância e uma grande movimentação financeira criavam uma nuvem de efeitos temporários e incipientes que escondiam as reais causas dos problemas de gestão.
Quando chega a crise, esta nuvem se dissipa e os resultados negativos aparecem. A empresa não está pior do que estava. Isso só não era palpável.
O que a crise faz é uma “depuração” das empresas.
Existirão menos pedidos, a preços mais baixos, com prazos mais curtos, feitos por empresas menos saudáveis que pedirão mais créditos e que talvez não paguem. As negociações chegam a condições extremas e este é o grande check-up para a saúde das empresas vendedoras.
Aquelas que têm qualidade de gestão antevêem os efeitos da crise, reorientam a sua estratégia, agem preventivamente, e conseguem fôlego extra para suportar a crise ( e em alguns casos, até prosperar com ela ).
As que não têm qualidade de gestão tentam vender qualquer coisa, para qualquer um a qualquer preço. E os resultados são desastrosos.
Ao vender “qualquer coisa” colocamos dentro da nossa produção itens que não são a nossa especialidade e isto faz com que a produtividade caia e o custo suba.
Ao vender para “qualquer um” aumenta-se a inadimplência, que prejudica o caixa, que pode ter efeitos no endividamento da empresa.
Ao vender a “qualquer preço” colocamos à prova os nossos custos, que são fruto de gorduras desnecessárias, ineficiências evidentes e materiais mal comprados.
O resultado disso para estas empresas “sem gestão” é que algumas delas simplesmente morrem, outras sofrem lesões que levarão alguns anos para serem reparadas, algumas saem vivas porém muito arranhadas e, na melhor das hipóteses, algumas levam um grande susto…
Logo, os resultados de uma crise nas empresas é moldado antes de sua chegada e este é o ponto que quero ter como base para a análise das perspectivas pós crise na indústria gráfica.
A depuração do mercado que a crise causa traz como consequência empresas “melhores”. As medidas acertadas que foram tomadas e os problemas/erros que tiveram que ser prontamente administrados trazem conhecimento e experiência para a empresa.
E este conhecimento fez com que a empresa sobrevivesse a uma condição extrema. A conclusão obvia é que, ao melhorar o mercado, esta condição de sobrevivência passa para o estágio de prosperidade, desde que não se percam os progressos obtidos na crise.
Mas antes de comentarmos estes progressos vale lembrar que no pós crise o mercado raramente volta à condição anterior. As conquistas obtidas pelos seus clientes, como menores preços, prazos de entrega mais curtos, prazos de pagamento mais longos, serviços agregados, não serão esquecidos por eles, isto é, cria-se um novo ambiente onde as condições de entrada e manutenção de um player no mercado são outras. A exigência do cliente aumenta.
E quem sobreviveu na crise e vai prosperar no pós crise são as empresas que souberam que medidas tomar e vão saber como mantê-las no novo ambiente.
Foi preciso cortar custos na crise. Quem souber fazer isto com inteligência, cortando efetivamente as gorduras, atacando os custos diretos desnecessários e atuando com firmeza e determinação na análise de desempenho / desperdícios e controle de gastos, obteve a resposta necessária e percebeu que a maior parte do resultado de uma empresa hoje não vem das receitas crescentes, mas sim de custos reduzidos.
Foi preciso melhorar a produtividade. Quem soube trabalhar corretamente a equipe treinando adequadamente os seus funcionários, motivando-os para a obtenção de resultados conseguiu muito retorno com pouco investimento.
Foi preciso melhorar a qualidade e quem soube utilizar corretamente a tecnologia disponível e “se livrar” de equipamentos e processos ineficientes ou onerosos conseguiu melhorar sua qualidade sem aumentar seus custos.
Portanto temos um novo ambiente de negócios: empresas melhores atendendo um mercado mais exigente. Estamos prontos para uma nova fase de prosperidade.
Só nos resta cuidar de um último ponto, mas que é crucial. Precisamos cuidar da memória!
E o que significa cuidar da memória? Significa que, à medida que os resultados forem surgindo, que a empresa for prosperando e a lucratividade melhorando, que não se esqueça de tudo o que precisou ser feito nos momentos difíceis e que se saiba ter o controle adequado de custos, desempenho e da estrutura organizacional para não se incorrer nos mesmos erros do passado e ter que lutar para sobreviver na próxima crise.
As cicatrizes precisam ficar visíveis!
Na prosperidade, devemos controlar nossos custos como se houvesse uma crise. Não contrate desnecessariamente; não faça gastos, só investimentos; pense no longo prazo; dê a chave do cofre para a pessoa mais conservadora de sua equipe.
Na prosperidade, continue investindo nas pessoas para aumentar a produtividade. Vamos tirar de cada um o que eles têm de melhor. Não compre mais equipamentos se os atuais não são bem aproveitados. Crie procedimentos, implemente, treine, motive e cobre.
Na prosperidade, invista na qualidade do produto e no atendimento aos clientes. Mas aos clientes certos; aqueles que querem o que sua empresa faz de melhor e estão dispostos a pagar por isso.
E mais do que tudo; faça tudo isso pensando na próxima crise… pois ela virá.
Fiz um comentário numa palestra no final do ano passado que gostaria de repetir para concluir este tema:
“Sempre encontro um otimista nos tempos de crise, e isso é bom. No entanto, sinto falta de um pessimista nos tempos bons, para nos manter com os pés no chão”.
É isso aí. Vamos colocar os pessimistas para nos ajudar na boa fase que está por vir.

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Gestão de Recursos – Notas de Aulas – Partes 1, 2 e 3 – Inclui Administração de Processos Estão chovendo novas informações sobre e-books, e outras ameaças ao mundo gráfico. Fique informado!

1 Comentário Add your own

  • 1. Robson Carvalho  |  30/10/2009 às 1:11 AM

    Botana, concordo com essa sua opinião. Tenho conversado com muitos gráficos e a maioria está revendo desperdícios e ralos, esse é um bom efeito colateral.
    O meu pessimismo: eles vão mesmo fazer a lição de casa ou vão relaxar com a desculpa de que ou trabalham prá dar conta das entregas ou perdem tempo arrumando a casa?
    abrazz

    Responder

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